As palavras escondem-se por trás do medo, e os gritos sufocam-se bem no fundo da minha garganta. No entanto, a raiva, alimentado-se furiosamente de cada trago de inspiração que os meus pulmões procuram, cresce imponente no meu peito. Mostra-se fria e impiedosa, aniquilando todo e qualquer sentimento fugaz que me permita, por momentos sentir. E sabes que mais, pequena? Chegou a um momento em que não me importo mais. As mãos apertadas contra o peito, e os dentes cerrados de fúria não me tiram mais as noites de sono, nem me fazem sentir como um pequeno monstro. Servem, por outro lado, com uma desmedida satisfação, para me acalentar nos momentos mais escuros, naqueles em que pensava que não ia ser capaz de sentir mais nada, e em que sentia que já me tinham tiraram tudo. Nesses momentos, ela faz sempre questão de aparecer. Miudinha, por breves instantes, e depois tão veemente que a sinto a transbordar-me do peito, e a escorrer-me pelos olhos. E isso, pequena, é ironicamente reconfortante. Afinal, como podia um sentimento tão negro ser a única coisa capaz de me aquecer o âmago? De me dar força e vontade para mostrar que sou muito mais que apenas um nada, movido pelas vontades daqueles cujo único intuito é destruir-me? É praticamente inconcebível não é? No entanto, neste momento, tudo isso se torna tão real que começo a questionar as minhas próprias cores.
lau.
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