E o aperto encontra-se lá. Miudinho, sorrateiro, arrastando-me
lentamente para o fundo como um formigueiro inquieto. E eu pergunto-me se tenho
o direito de me sentir assim. Se não serei demasiado cobarde, demasiado
picuinhas, demasiado fraca e demasiado inútil para não virar a cara quando ele,
descuidado, mostra as suas pontas. É que sabes, a luz por vezes torna-se tão
fraca que os meus olhos nem sequer são capazes de a captar. E eu não sei sentir
o que sinto. Não sei pegar nos flocos de afeição que caem nas minhas mãos e
captá-los para sempre. Muito menos quando eles teimam em cair naqueles sítios mais
aterradores. Naqueles onde a sombra cobre a cor, e me derrete o âmago com a
facilidade de uma inspiração. E isso faz de mim alguém vazio, não faz? Alguém
incapaz de calar as vozes, e os medos e de erguer a cabeça. E eu só gostava que
tudo parasse de girar. Que todos os gritos, todos as lutas, todos os sufocos e
suspiros desenfreados voltassem ao lugar onde pertencem, e deixassem a confusão
descansar fúnebre nas minhas mãos. E isso, agarrado impetuosamente às correntes
da minha própria cobardia, faz de mim alguém inútil, não faz?
lau
Sem comentários:
Enviar um comentário