E se, hoje, me perguntares o que é que está errado... Eu vou fingir que não conheces a minha dor, e sorrir, como sempre faço. Vou pegar em todas as lágrimas, suspiros desenfreados, e lamúrios de mágoa e guardá-los bem longe da tua vista. Porque, a verdade, é que não suporto que me conheças assim. Tão frágil, tão humana, e sem aquela ponta de tenacidade que sempre percorria os contornos da minha personalidade. Para ti, eu não posso ser uma bonequinha de pano, com medo que lhe arranquem mais pedaços. Para ti, eu tenho que ser cem vezes mais forte que o universo, e mil vezes mais forte que as correntes que me arrastam bem para o fundo. E acredita, não o faço porque a mágoa que me impuseste é tão difícil de suportar que me rouba qualquer vontade de me mostrar verdadeira. Não, pequeno, não tem nada a ver contigo. Na verdade, tem a ver com todos os outros. Com aqueles que precederam os teus erros, e se mostraram muito mais tenebrosos aos meus olhos. Aqueles que partiam e voltavam sempre que o vento ecoava uma música diferente, e aqueles que permaneciam apenas para me mostrar que os monstros existem, de facto, dentro de nós. É por causa de todos esses que não permito que me conheças assim. Que conheças as verdadeiras cores do meu sofrimento, ou a verdadeira voz da minha mágoa. Não suporto mais que me conheçam assim. Fraca, idiota e sobretudo, demasiado cobarde para enfrentar os medos. Desta vez, eu serei muito mais eu do que alguma vez fui. Por isso, pequeno, se hoje me perguntares o que é que está errado, não esperes que a resposta seja sincera e me expluda directamente do âmago. Não esperes que te encare hesitante nos olhos e dê voz aquilo que ambos sabemos, porque, a verdade, é que eu não o vou fazer. Desta vez, pequeno, eu vou pegar em todas as forças que ainda me restam, fingir que não conheces a minha dor, e sorrir, como sempre faço.
lau.