27.3.13






E se, hoje, me perguntares o que é que está errado... Eu vou fingir que não conheces a minha dor, e sorrir, como sempre faço. Vou pegar em todas as lágrimas, suspiros desenfreados, e lamúrios de mágoa e guardá-los bem longe da tua vista. Porque, a verdade, é que não suporto que me conheças assim. Tão frágil, tão humana, e sem aquela ponta de tenacidade que sempre percorria os contornos da minha personalidade. Para ti, eu não posso ser uma bonequinha de pano, com medo que lhe arranquem mais pedaços. Para ti, eu tenho que ser cem vezes mais forte que o universo, e mil vezes mais forte que as correntes que me arrastam bem para o fundo. E acredita, não o faço porque a mágoa que me impuseste é tão difícil de suportar que me rouba qualquer vontade de me mostrar verdadeira. Não, pequeno, não tem nada a ver contigo. Na verdade, tem a ver com todos os outros. Com aqueles que precederam os teus erros, e se mostraram muito mais tenebrosos aos meus olhos. Aqueles que partiam e voltavam sempre que o vento ecoava uma música diferente, e aqueles que permaneciam apenas para me mostrar que os monstros existem, de facto, dentro de nós. É por causa de todos esses que não permito que me conheças assim. Que conheças as verdadeiras cores do meu sofrimento, ou a verdadeira voz da minha mágoa. Não suporto mais que me conheçam assim. Fraca, idiota e sobretudo, demasiado cobarde para enfrentar os medos. Desta vez, eu serei muito mais eu do que alguma vez fui. Por isso, pequeno, se hoje me perguntares o que é que está errado, não esperes que a resposta seja sincera e me expluda directamente do âmago. Não esperes que te encare hesitante nos olhos e dê voz aquilo que ambos sabemos, porque, a verdade, é que eu não o vou fazer. Desta vez, pequeno, eu vou pegar em todas as forças que ainda me restam, fingir que não conheces a minha dor, e sorrir, como sempre faço.

lau.

18.3.13







As palavras escondem-se por trás do medo, e os gritos sufocam-se bem no fundo da minha garganta. No entanto, a raiva, alimentado-se furiosamente de cada trago de inspiração que os meus pulmões procuram, cresce imponente no meu peito. Mostra-se fria e impiedosa, aniquilando todo e qualquer sentimento fugaz que me permita, por momentos sentir. E sabes que mais, pequena? Chegou a um momento em que não me importo mais. As mãos apertadas contra o peito, e os dentes cerrados de fúria não me tiram mais as noites de sono, nem me fazem sentir como um pequeno monstro. Servem, por outro lado, com uma desmedida satisfação, para me acalentar nos momentos mais escuros, naqueles em que pensava que não ia ser capaz de sentir mais nada, e em que sentia que já me tinham tiraram tudo. Nesses momentos, ela faz sempre questão de aparecer. Miudinha, por breves instantes, e depois tão veemente que a sinto a transbordar-me do peito, e a escorrer-me pelos olhos. E isso, pequena, é ironicamente reconfortante. Afinal, como podia um sentimento tão negro ser a única coisa capaz de me aquecer o âmago? De me dar força e vontade para mostrar que sou muito mais que apenas um nada, movido pelas vontades daqueles cujo único intuito é destruir-me? É praticamente inconcebível  não é? No entanto, neste momento, tudo isso se torna tão real que começo a questionar as minhas próprias cores. 


lau.

27.12.12




E o aperto encontra-se lá. Miudinho, sorrateiro, arrastando-me lentamente para o fundo como um formigueiro inquieto. E eu pergunto-me se tenho o direito de me sentir assim. Se não serei demasiado cobarde, demasiado picuinhas, demasiado fraca e demasiado inútil para não virar a cara quando ele, descuidado, mostra as suas pontas. É que sabes, a luz por vezes torna-se tão fraca que os meus olhos nem sequer são capazes de a captar. E eu não sei sentir o que sinto. Não sei pegar nos flocos de afeição que caem nas minhas mãos e captá-los para sempre. Muito menos quando eles teimam em cair naqueles sítios mais aterradores. Naqueles onde a sombra cobre a cor, e me derrete o âmago com a facilidade de uma inspiração. E isso faz de mim alguém vazio, não faz? Alguém incapaz de calar as vozes, e os medos e de erguer a cabeça. E eu só gostava que tudo parasse de girar. Que todos os gritos, todos as lutas, todos os sufocos e suspiros desenfreados voltassem ao lugar onde pertencem, e deixassem a confusão descansar fúnebre nas minhas mãos. E isso, agarrado impetuosamente às correntes da minha própria cobardia, faz de mim alguém inútil, não faz?

lau

11.11.12






O dia sorri-me, e a noite fecha-me a sua carranca como se abomina-se aquilo que sou. Aquilo que fiz, aquilo que um dia ainda irei fazer. E eu, vestida apenas com o meu próprio embaraço, perco-me novamente nas lamurias da minha própria confusão e escolho não escolher nunca mais. 

imagination.



3.11.12




O meu coração cálido encolhe-se à medida que o vento lancinante o ameaça dilacerar. É que sabes, b, eu já não aguento mais segurá-lo tremulamente nas minhas mãos. É demasiado pequeno e frágil, e as suas batidas fazem-se ouvir tão abafadas que me questiono se ele alguma vez voltará a ser o mesmo. E eu tenho medo. Muito medo que a minha cobardia ou fraqueza o faça perder-se de novo, e deslizar fúnebre até ao chão. É que se ele se partir outra vez, eu não serei capaz de o cicatrizar. Não desta vez, não de novo. E tu não estás cá comigo. Não mais, para o levantar cuidadosamente do chão, me dar um beijinho na testa e fazer tudo ficar bem. Por isso, b, eu não posso mais segurá-lo. Não, quando eles continuam a querer destruí-lo de forma tão inconsciente e inata, que me custa a acreditar que alguém seja capaz de tal crueldade. Transformam-se em criaturas medonhas aos meus olhos, sabes? Muito mais vis que os monstros debaixo da cama, ou ao fundo da rua, e dolorosamente mais necessários para mim do que qualquer outro monstro que alguma vez já tive de enfrentar. Por isso, desta vez, eu vou guardar o meu coração bem fundo no amago e esperar que eles não o tornem a encontrar. Pelo menos não tão cedo. Não enquanto eu não aprender a sobreviver sem ti. 

lau.